Melancolia
espaço de discussão e de reflexão sobre a melancolia, tanto como sentimento como enquanto atitude diante da contemporaneidade e da sua cultura.
Sunday, October 29, 2006
Resposta a Dante
Sentei-me naquela pedra a olhar o horizonte eterno no ocaso e, como sempre, fui resvalando para uma doce modorra que no nada a passagem da ferida sanguínea do tempo abre. Senti-vos aproximar, a ti e ao teu mestre, e perguntei-me do direito que têm para perturbar o meu repouso inquieto. Há quantos séculos o restolho das vossas palavras circula neste inferno que outros dizem azul, quando visto de longe. Ilusões, engole-as quem pode, eu, como o meu homónimo que tu bem conheceste, digo-te que, antes de me entusiasmar com a perspectiva de um lugar mais rarefeito e leve, devo permanecer uma eternidade nesta cova funda e negra, donde a sua única abertura para o firmamento deixa passar a penumbra da luz que ao acaso a irisa momentaneamente.
Belacqua
Monday, March 20, 2006
O Abutre
entre o céu e a terra da minha vigília
de borco inúmeros os sentidos se apagam
na cova lamacenta da boca outros se levantam
deambulando pelas dunas da minha memória
enquanto um restolho de palavras ciranda ao vento
nas encostas quentes e côncavas do meu cérebro
Belacqua, 19 de Março de 2006
de borco inúmeros os sentidos se apagam
na cova lamacenta da boca outros se levantam
deambulando pelas dunas da minha memória
enquanto um restolho de palavras ciranda ao vento
nas encostas quentes e côncavas do meu cérebro
Belacqua, 19 de Março de 2006
Friday, January 20, 2006
Monday, October 24, 2005
O berço do humor
O lugar onde nasce o humor é sempre negro: a claridade do riso na dobra assustadora de um reposteiro sinistro.
Belacqua, 23 de Outubro de 2005.
Sunday, October 23, 2005
O rugir na voz
Senti-lhe o tumulto na voz como o ruído de idades incompletas a abaterem-se na areia de uma história desejada. Se um fundo de ironia dissolvesse todas as expectativas, esse furacão, por detrás da doçura entoada das palavras, seria a insistência do corpo, e da sua inumanidade, na cólera terrível da sua satisfação: sonho e violência de mãos dadas, dançando a crueldade do tempo até que a morte os separe.
Belacqua
Sunday, June 05, 2005
A intocável ferida
E se o objecto da representação fosse o modo mesmo como ela se constitui? Se o seu motivo fosse o carácter da sua motivação?O seu lado escondido, por assim dizer, surgiria plena e irisadamente sob a luz negra do terror primitivo do homem. Então, o modo de ver o mundo aparecer-nos-ia explicitamente e a sua relação com as leis da cidade seria óbvia. A verdade, o bem e a beleza seriam, de um só gesto, destino e origem de todas as acções e pensamentos. Mas não sendo assim, apenas na sombra da ferida intuímos as coisas ou, de um outro modo, na modulação da voz julgamos perceber o que escondemos, no tunning do corpo com a cultura, no sabat nocturno entre o desejo e a sua representação ouvimos por vezes o respirar do vazio entumescido da falta.
Belacqua